La Tropicália Folk do Século 21

5 08 2008

Tradução por Pablo Lopes Queiroz.

Devendra Banhart já é considerado mestre de um estilo definido por muitos como “besteirol riponga”. Em seu quinto, e mais recente CD, Smokey Rolls Down Thunder Canyon, o músico se enfurnou em Topanga Canyon, na Califórnia, para criar, nos métodos tradicionais, uma obra folk-psicodélica crua, buscando inspiração em sua enorme barba hirsuta e também nos espíritos locais. Com muito talento, ele consegue transformar idéias malucas em ótimas canções, mesmo através de letras como “em 1920/O diabo mamou nas tetas da Lua”. Qualquer um indicaria, com urgência, um novo compositor, para ele, mas seria o mesmo que dar uma bússola para um urso dançarino se movimentar. São esses os elementos que dão graça ao seu trabalho e sem isso, suas canções perderiam a cor e a vida . O cara é um bicho-grilo que em muitos momentos lembra o lirismo de Jim Morrison e mesmo quando não,  o músico se parece ao menos com Don Knotts (o ator norte-americano atuou em comédias como o famoso The Andy Griffith Show, de grande sucesso nos anos 60).

Em Smokey, Devendra deixa transparecer todo o tipo de influências de ídolos dos anos 60 como, David Crosby, Donovan, Skip Spence e em especial Jerry Garcia, mantendo em suas canções uma rica aura acústica, própria de bandas como Greatful Dead. Contudo, se engana quem pensa que o som de Devendra seja algo simplório. A produção é, ao mesmo tempo, rica e simples, mas sempre seguindo o groove e a temática hippie. Devendra ainda conta com a colaboração de uma comunidade de amigos “maluco-beleza”, além da participação de celebridades como Chris Robinson (vocalista do Black Crowes) em “Samba Vexillographica” e o ator Gael Garcia Bernal em “Cristobal”. Em seu último CD, Cripple Crow, ele tentou dar algum sentido à sua obra, permeada por uma levada reggae que soava datada e não muito diferente do que o normal. Entrentanto, em seu mais recente trabalho, suas canções adquiriram mais força como nas baladas, claramente inspiradas na country music, Freely” e “My Dearest Friend”. Suas músicas são como nuvens se deslocando pelo céu e suas melodias como árvores prontas para serem escaladas. E o resultado que vemos é o seu trabalho mais consistente desde Nino Rojo, de 2004, se não o seu melhor trabalho até agora.

Devendra realmente se superou com canções como “Sea Horse”, em que abusa do violão e canta sem medo: “Eu estou chapado e estou feliz e me sinto livre/O meu coração está aberto e exposto bem na minha frente”. Seus talentos vocais mais lembram um Leonard Cohen ainda jovem, ou o ainda não fumante Bob Dylan de Nashville Skyline. Entretanto, só quando entra a bateria nos damos conta de que essa é uma canção sobre sexo, a vida marinha e reencarnação. Nessa salada musical ele ainda inclui arranjos de piano, órgão, flauta, uma levada de jazz e linhas de guitarra ao melhor estilo do mestre Neil Young. A sonoridade da faixa é excelente. Não faz muito sentido uma canção como essa conter oito minutos de duração, mas tentar encontrar algum sentido na obra de Banhart é como pedir conselhos para uma samambaia.

A faixa “Tonada Yanomamista” é outro ponto alto do CD, com uma pegada rock ao melhor estilo Byrds e mais letras enigmáticas que misturam histórias sobre hipopótamos, cavalos e o demônio. A baladona “Bad Girl” lembra muito “Don’t Let Me Down” dos Beatles, na qual Devendra abusa do piano, dos efeitos wah-wah de guitarra (marca registrada de George Harrison) e estranhamente confessa: “Eu fui uma garota muito má”. Não poderia deixar de ser citado o fato de o músico expressar todo o seu amor pela música brasileira, cantando em português na delicada “Rosa” e emulando seu ídolo, Caetano Veloso, através de sussurros eróticos e melancólicos, na faixa “Samba Vexillographica”. A faixa “Carmencita” mostra toda a veia sul-americana do músico (criado na Venezuela) que abusa de arranjos de guitarra tipicamente latinos e de uma marcante levada ao ritmo da conga. O clipe da música ainda conta com a participação da atriz e sua atual namorada, Natalie Portman.

Devendra Banhart define seu estilo como “naturalismo” e segue a premissa de que aquilo que é orgânico não está tão longe assim do que é meramente artificial. Como Wallace Stevens costumava dizer, “Este é um mundo artificial/E tanto a rosa/Quanto o papel fazem parte da natureza desse mundo”. Mas esse “bicho-grilo” barbudo e magricela, cujo semblante, por muitas vezes, mais lembra um gnomo saído de uma obra surreal qualquer, não parece se levar assim tão a sério. A mais leve menção de qualquer influência hippie já faria sua obra soar datada, mesmo assim as canções de Devendra são diversão garantida. Como todos da nova geração folk, o músico é nostálgico e tenta arduamente atingir toda a esquisitice do antológico Music From Big Pink do grupo the folk rock The Band e lançado em 1968. Diferente de algum de seus companheiros de estrada, Devendra sempre sacou que não havia nada de inocente no som do The Band, afinal eles eram músicos profissionais e não fazendeiros. A linha sempre fora muito tênue e mesmo sem querer, Devendra já conseguiu criar o seu Big Pink.

Fonte: Resenha traduzida do site da Revista Rolling Stone.

Devendra Banhart - Smokey Rolls Down Thunder Canyon

Devendra Banhart - Smokey Rolls Down Thunder Canyon


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